Antonio Sergio Moreira é um artista cuja obra se destaca por abordar temas relevantes como a diáspora africana, a resistência do povo negro e a valorização da cultura afro-brasileira. Sua trajetória artística e intelectual oferece uma rica fonte de conhecimento e inspiração.
Esses encontros de culturas e expressões não apenas homenageia o legado africano no Brasil, mas também reafirma o papel central de Antonio Sergio Moreira como um interlocutor vital entre o passado e o futuro, entre o tradicional, o moderno e o contemporâneo. Essas marcas e conhecimentos fazem parte da minha prática artística, são meus por experiências traduzidas em arte e resistência, onde meu grito é: eu sou!
Além das Fronteiras
Antonio Sergio Moreira e a Cartografia Global da Expressão Afro-Diaspórica
por Ricardo Fernandes
No discurso contemporâneo global da arte, poucos artistas carregam a ressonância de um cartógrafo — mapeando memória, identidade e resistência com tamanha autenticidade inabalável. Antonio Sergio Moreira, cuja trajetória prolífica se estende por mais de quatro décadas, ocupa esse papel com rara sutileza. Esta apresentação evidencia um novo capítulo de sua prática expansiva, emergindo de uma residência na Grande Paris, precisamente em Saint-Ouen — uma experiência definida menos pela geografia do que pela transformação.
A obra de Moreira situa-se na interseção entre investigação estética e narrativa sócio-histórica. Seu léxico pictórico e escultórico se alimenta das cosmologias afro-brasileiras, das migrações transatlânticas e do corpo politizado. Contudo, neste corpo recente de trabalhos, produzido durante sua participação na terceira edição do nosso Programa de Residências Artísticas no contexto do Ano do Brasil na França 2025, o artista engaja-se com o território de maneira mais porosa. A residência funcionou não apenas como espaço de trabalho, mas como um eixo de escuta mútua — um lugar onde materiais, memórias e significados se entrelaçaram.
La Patinoire de Saint-Ouen serviu não apenas como ateliê, mas como laboratório: um espaço de pesquisa gestual, ritual dialógico e intervenção espacial. Mais de 30 obras criadas durante a residência constituem o que Moreira denomina “Afro-Échos” — uma reflexão em evolução sobre os ecos da herança africana nos corpos diaspóricos. Esse corpus reflete uma ideia expandida de proximidade: não apenas física ou geográfica, mas também temporal, psíquica e emocional. A obra dialoga com ritmos urbanos e ancestrais, revelando como a arte afro-diaspórica contemporânea pode desafiar categorizações e, em vez disso, sugerir continuidade entre passado, presente e futuros especulativos.
Afro-ressonância: La Patinoire a Casa do Tempo Circular
Realizar a residência artística Afro-ressonância na Arte Contemporânea foi, para mim, foi atravessar um rio de memórias e invenções. Durante três meses, entreguei-me a um mergulho sem margens, onde cada gesto de pesquisa, cada traço de pintura e cada encontro eram parte de um rito de iniciação. O tempo não tinha pressa. Espaço e instante se tornaram um só, abrindo-me caminho. O silêncio de La Patinoire era solitude, mas também certeza: cada etapa era aprendizado, como quem descobre, passo a passo, o gesto de caminhar.
Essa travessia foi sustentada pela Bolsa de Residência e Intercâmbio da PNAB/MG, sopro vital que me conduziu até a França. Mas não caminhei só. Estiveram comigo as forças da Galeria Ricardo Fernandes, da Embaixada do Brasil na França, da Embaixada do Brasil na Bélgica, da CUFA Paris – Expo Favelas, Prefeitura de Saint-Ouen do Centro Nacional de Africanidade e Rêsistencia Afro-Brasileiro – CENARAB. Essas presenças formaram um círculo de proteção e partilha, sustentando o fluxo da criação.
A Galeria Ricardo Fernandes, em Saint-Ouen, inaugurou seu programa de residências com este projeto — uma parceria que entrelaçou diálogos e alianças. O Prefeito Karim Bouamrane, anfitrião generoso, ao lado da vice-prefeita Emna Sghaier, de Sophie Dernois (Secretaria de Cultura), de Samia Khitmane (diretora de parcerias) e de toda a equipe da Mairie, acolheram-me na antiga quadra de patinação, La Patinoire. Ali, transformei o espaço em ateliê: era La Maison du Temps Circulaire, a casa onde a memória da diáspora ecoava em cada pincelada.
Conduzi quatro ateliês de pintura (crianças, adolescentes e pessoas idosas), encontros dedicados a afro-ressonância, a afro-diáspora e à cultura afro-brasileira. A comunidade local se uniu em partilha, e os jovens que participaram em breve atravessarão o Atlântico rumo ao Brasil, levando consigo sementes dessa experiência para a COP 30. Vieram também artistas, colecionadores, curadores, jornalistas, estudantes da Escola de Belas Artes de Paris. Entre os visitantes, a fotógrafa americana Julien McRoberts, que realizou um ensaio comigo durante a residência. Cada encontro era como acender uma fogueira: ao redor dela, falávamos da diáspora, da resiliência e da beleza persistente das comunidades afrodescendentes.
O convite do curador Daniel Nicolaevsky para participar da exposição no evento CUFA – Expo Favelas Innovation 2025, em Paris, trouxe outra vivência marcante. A Expo Favelas tornou-se um encontro afro-diaspórico do afroempreendedorismo, um espaço de conexões entre pessoas, experiências e linguagens. Produzi obras de grandes formatos que dialogam poeticamente com a iconografia dos pontos riscados dos terreiros de matrizes africanas no Brasil. Assim nasceu a série Afro-Résonances.
Na voz do Prefeito Karim Bouamrane, ouvi: “Liberté, Égalité, Fraternité”. Para compreender esses valores, vivi entre os habitantes da cidade, onde a palavra liberdade pulsa no cotidiano. Como celebração desses encontros, criei a obra Afro-Résonances, que doei à Mairie de Saint-Ouen. Nela, rostos e memórias de povos afro-diaspóricos se entrelaçam, revelando a pluralidade das diferenças que habitam a cidade.
A presença do Embaixador do Brasil na França, Ricardo Neiva de Tavares, de sua esposa Cecília Meira Penna Tavares, e da vice-prefeita Emna Sghaier na exposição consolidou a residência como parte das comemorações do Ano do Brasil na França, reforçando os laços internacionais que venho construindo ao longo dos anos em parceria com a Galeria Ricardo Fernandes.
Compreendi, então, que a residência não era apenas espaço de produção, mas, sobretudo território de passagem. O que ali germinou não se mede em resultados imediatos, mas em caminhos abertos, em memórias transformadas em novas linguagens. As heranças afro-diaspóricas que carrego no corpo e na história puderam se reinventar, reafirmando a arte como lugar de resistência, memória e reinvenção cultural.
Hoje, parte dessa travessia respira no tempo presente: a exposição Afro-Résonances, que esteve em cartaz na Galeria Ricardo Fernandes entre 12 de junho e 29 de setembro, foi à partitura visível de um processo que nasceu como imersão íntima e se tornou celebração coletiva. Cada obra ali pulsa como testemunho da memória que resiste e da criação que renasce. Acredito que o valor das coisas está no que podem vir a ser.
Com gratidão profunda, agradeço a todas as pessoas, instituições e parceiros que tornaram possível a realização deste projeto. Cada gesto de apoio, cada palavra de incentivo e cada colaboração foram essenciais para que esta travessia artística se concretizasse.
Antonio Sergio Moreira
Belo Horizonte – Minas Gerais – Brasil
Primavera de 2025
O convite do curador Daniel Nicolaevsky para participar da exposição no evento CUFA – Expo Favelas Innovation 2025, em Paris, trouxe outra vivência marcante. A Expo Favelas tornou-se um encontro afro-diaspórico do afroempreendedorismo, um espaço de conexões entre pessoas, experiências e linguagens. Produzi obras de grandes formatos que dialogam poeticamente com a iconografia dos pontos riscados dos terreiros de matrizes africanas no Brasil.
Na voz do Prefeito Karim Bouamrane, ouvi: “Liberté, Égalité, Fraternité”. Para compreender esses valores, vivi entre os habitantes da cidade, onde a palavra liberdade pulsa no cotidiano. Como celebração desses encontros, criei a obra Afro-Résonances, que doei à Mairie de Saint-Ouen. Nela, rostos e memórias de povos afro-diaspóricos se entrelaçam, revelando a pluralidade das diferenças que habitam a cidade.
A presença do Embaixador do Brasil na França, Ricardo Neiva de Tavares, de sua esposa Cecília Meira Penna Tavares, e da vice-prefeita Emna Sghaier na exposição consolidou a residência como parte das comemorações do Ano do Brasil na França, reforçando os laços internacionais que venho construindo ao longo dos anos em parceria com a Galeria Ricardo Fernandes.
Compreendi, então, que a residência não era apenas espaço de produção, mas, sobretudo território de passagem. O que ali germinou não se mede em resultados imediatos, mas em caminhos abertos, em memórias transformadas em novas linguagens. As heranças afro-diaspóricas que carrego no corpo e na história puderam se reinventar, reafirmando a arte como lugar de resistência, memória e reinvenção cultural.
Hoje, parte dessa travessia respira no tempo presente: a exposição Afro-Résonances, que esteve em cartaz na Galeria Ricardo Fernandes entre 12 de junho e 06 de outubro, foi à partitura visível de um processo que nasceu como imersão íntima e se tornou celebração coletiva. Cada obra ali pulsa como testemunho da memória que resiste e da criação que renasce. Acredito que o valor das coisas está no que podem vir a ser. Mó juba!
Com gratidão profunda, agradeço a todas as pessoas, instituições e parceiros que tornaram possível a realização deste projeto. Cada gesto de apoio, cada palavra de incentivo e cada colaboração foi essencial para que esta travessia artística se concretizasse.
Obrigado! Merci! Thanks! Shkran!